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Resenhar te faz viver mais... e melhor!

Amizade, fraternidade, cumplicidade, família, longevidade

Após discutirmos sobre os três primeiros níveis da longevidade (Saneamento Básico, Educação e Alimentação - clique sobre eles para ler o texto completo), entraremos no Nível 4. O famoso provérbio: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és” está diretamente ligado à longevidade das pessoas. Vamos abordar este tema. Vem comigo!


Nível 4 - Rede de Relacionamentos


O ser humano é um animal sociável. Precisamos uns dos outros para vivermos mais e melhor. Nossa segurança e força vêm da nossa habilidade de socialização e ajuda mútua. Segundo o escritor, filósofo e cineasta italiano Luciano De Crescenzo: "Somos todos anjos com uma asa só, e só podemos voar quando abraçados uns aos outros".  Nosso círculo social tem relação direta com nossa longevidade. 


Primeiro, a solidão mata tanto quanto o cigarro! Cercar-se de amigos torna a jornada mais agradável, mais leve e mais divertida. Segundo, os hábitos do grupo social mais próximo influenciam diretamente os seus. Estar inserido em um grupo que cultiva os bons hábitos, impreterivelmente, ajudará você a melhorar os seus, e o inverso é recíproco. Terceiro, ter com quem contar, principalmente em momentos complicados, promove uma paz de espírito e uma segurança maior para aproveitar a vida. O núcleo familiar bem estruturado tem um papel essencial aqui.


Dentre os diversos indicadores para avaliar este quesito e compará-lo entre os países, encontrei o  Suporte Social Percebido (“Social Support”) que é um dos braços do Relatório Mundial da Felicidade (“World Happiness Report”) da ONU.  Ele é calculado a partir da seguinte pergunta: "Se você estivesse em apuros, você tem parentes ou amigos com quem contar?". Utilizando apenas este braço, eliminamos distorções e medimos apenas o afeto e a segurança interpessoal que são os verdadeiros combustíveis biológicos para esticar a expectativa de vida.


País e Posição Mundial em Longevidade

Expectativa de Vida (Anos)

População com Suporte Social Confiável (%)

🇲🇨 Mônaco (1º)

86.5

N/A (Microestado não

amostrado pelo Gallup)

🇸🇲 San Marino (2º)

85.8

N/A (Microestado não

amostrado pelo Gallup)

🇭🇰 Hong Kong (3º)

85.6

83.1%

🇯🇵 Japão (4º)

84.8

89.6%

🇰🇷 Coreia do Sul (5º)

84.4

80.3%




🇺🇸 Estados Unidos (45º)

79.5

94.1%

🇧🇷 Brasil (96º)

76.0

83.4%




🌍 Média Mundial

73.3

~80.5%




🇱🇸 Lesoto (193º)

57.8

76.8%

🇨🇫 Rep. Centro-Africana (194º)

57.7

47.6%

🇳🇬 Nigéria (195º)

54.6

68.4%


Analisando os dados, fica muito claro que existe uma correlação entre o suporte social e a longevidade, claro que com variações importantes devido a outros fatores populacionais. Os EUA chamam atenção pela potência do Capital Social, mas pecam absurdamente no Nível 3 (Alimentação), o que reduz sua longevidade geral


O campeão mundial neste quesito é a Islândia, com impressionantes 98,3%! Quase todos os habitantes contam com uma rede de apoio social. O isolamento geográfico histórico e o clima extremo criaram uma cultura de dependência mútua e forte coesão comunitária. 


Dentre algumas características muito bacanas de populações longevas, gostaria de destacar duas: o “Moai” japonês e o “Hygge” dinamarquês:


Moai


O Japão se destaca como nossa principal referência quando o assunto é expectativa de vida e rede de relacionamentos, onde 89,6% da população se sentem acolhidos e seguros. Um dos grandes segredos se chama Moai, nascido em Okinawa, é um sistema estruturado, formal e vitalício de apoio mútuo. Vale conhecer! A tradução literal é “encontro para um propósito comum”, diferente de um grupo de amigos simples que se reúne casualmente, o Moai é um compromisso para toda a vida. O funcionamento é muito interessante…


1. A Formação ainda na Infância: Idade: ~5 anos.


As crianças são inseridas pelos pais em um Moai composto por cerca de 5 a 6 vizinhos da mesma idade. Este grupo crescerá junto, compartilhando todas as fases do desenvolvimento. Nada mais é do que nossos amigos de infância, mas lá, isto é intencional.


2. Encontros Regulares:Frequência: Semanal ou Mensal.


O grupo se reúne com disciplina absoluta durante toda a vida. Nesses encontros, eles jantam, bebem chá verde, jogam, conversam sobre a vida, dividem suas angústias e celebram conquistas. O contato visual e físico regular mantém os laços vivos. Nada de rede social virtual, aqui, o segredo é o olho no olho real!


3. Fundo Financeiro Coletivo: O pilar prático.


Cada membro contribui com uma quantia mensal fixa para um fundo comum. A cada mês, um dos membros retira o valor total acumulado para realizar um sonho, fazer uma reforma ou pagar uma dívida. Se um membro passa por uma emergência (doença ou crise), o grupo repassa o dinheiro imediatamente a ele.


4. O Amparo na Velhice:Até o fim da vida.


Conforme envelhecem, os membros do Moai monitoram uns aos outros diariamente. Se um idoso não aparece para a caminhada matinal, o grupo vai até a sua casa checar. Eles se tornam a principal rede de proteção médica, logística e afetiva do idoso.


Não sei se é por isso que eles vivem tanto, mas, certamente, é um dos principais motivos. Primeiro, o Moai combate a solidão, pois o membro tem um papel social e um grupo de pessoas que se importam, verdadeiramente, com a sua existência. Isso diminui o risco de depressão e o sentimento de invisibilidade comuns na terceira idade. Segundo, reduz o estresse financeiro e emocional. A certeza de um suporte próximo minimiza a ansiedade e proporciona um maior bem-estar. Terceiro, hábitos saudáveis por um “contagio” social.


Hygge


A Dinamarca também é um belo exemplo de longevidade e suporte social, onde a expectativa de vida é de 81,5 anos e o capital social é de 95,9%! Um dos segredos é o Hygge, conceito cultural dinamarquês caracterizado por uma atmosfera de aconchego, conexão e bem-estar compartilhado entre 5 e 6 pessoas (familiares ou amigos muito íntimos) que criam uma rede social confiável e muito próxima. Naturalmente desenvolvido como uma estratégia de sobrevivência psicológica contra os invernos rigorosos e escuros do norte da Europa. Os elementos centrais do Hygge são:


  • A Atmosfera (Luz Suave): A Dinamarca queima mais velas per capita do que quase qualquer país do mundo. A iluminação forte e direta é evitada. O foco é criar um ambiente caloroso, relaxante e seguro.


  • Comida Confortável (“Comfort Food”): Nada de dietas restritivas ou jantares excessivamente formais. O conceito envolve tomar um café quente, comer um bolo caseiro ou compartilhar uma sopa com calma.


  • Presença Absoluta: O Hygge exige desligar as telas. É sobre estar genuinamente focado na conversa, no silêncio compartilhado e no momento presente.


O Moai e o Hygge possuem semelhanças incríveis e formalizam a importância dos amigos e da família para a saúde de qualquer ser humano, seja na longevidade ou apenas na qualidade de vida.


No Brasil, a famosa “resenha” pós pelada ou um encontro em um bar ou restaurante são adaptações clássicas dos modelos japonês e dinamarquês, mas, infelizmente, o álcool segue sendo a “cola” principal da maioria dos grupos, ou seja, são voláteis e contrários à longevidade. Entretanto, seguem bem com o propósito de agregar! Tenho e vivo um exemplo clássico: o CMD Master! Amigos há mais de 30 anos ligados pelo futebol! Nestes anos todos, agregamos outros colegas e novas gerações. Somos uma verdadeira família com um propósito de irmandade que me encanta. Nossas esposas se conhecem, nossos filhos brincam juntos, nós viajamos juntos! Também existem trairagens e confusões, mas temos a certeza de que podemos contar com todos nos momentos mais complicados. Literalmente, na alegria e na doença! Tenho muito orgulho de fazer parte! 


Na minha casa, também tenho um exemplo muito bacana: os Sete Anões! Papai tem 6 irmãos, todos eles baixinhos! O mais velho, meu padrinho, José Sylvio, tem 88 anos, o mais novo, Marco Antônio, 69. O “Moai Hygge” deles é real! Quase mensalmente, os 7 se reúnem, quase semanalmente, de 4 a 5 se encontram! É impressionante! Eles sabem que podem contar um com o outro! Alguns já adoeceram e precisaram de internação, os outros seis ficavam de vigília na porta do hospital! Já vi muito “ranca rabo”, mas no final, sabem que são irmãos, se amam e se respeitam, cada qual do seu jeito! Eles são a prova viva de que o suporte social é uma arma poderosíssima de longevidade!


E você? Tem o seu Moai ou Hygge? Envie este texto para aquele grupo de amigos de verdade! Não tem? Está esperando o quê? 




Referências Bibliográficas

1. Suporte Social e Felicidade Global (Dados Populacionais por País)

  • HELLIWELL, John F. et al. World Happiness Report. Nova York: Sustainable Development Solutions Network (SDSN) / Nações Unidas (ONU). Disponível em: https://worldhappiness.report/. (Fonte primária para o indicador de Suporte Social Percebido — "Social Support").

  • GALLUP, Inc. Gallup World Poll Methodology. Washington, D.C.: Gallup Analytics. (Metodologia global de amostragem binária utilizada para a coleta de dados sobre redes de apoio interpessoal).

2. Expectativa de Vida Humana e Dados Demográficos

  • UNITED NATIONS (UN). Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects. Nova York: Nações Unidas. Disponível em: https://population.un.org/wpp/. (Fonte oficial para o ranking mundial de longevidade e expectativas de vida).

3. Impacto Biológico do Isolamento Social na Longevidade

  • HOLT-LUNSTAD, Julianne; SMITH, Timothy B.; LAYTON, J. Bradley. Social Relationships and Mortality Risk: A Meta-analytic Review. PLOS Medicine, v. 7, n. 7, 2010. (Estudo científico de referência que comprova o impacto biológico da solidão na mortalidade comparada ao tabagismo).

  • WALDINGER, Robert; SCHULZ, Marc. The Good Life: Lessons from the World's Longest Scientific Study of Happiness. Nova York: Simon & Schuster, 2023. (Dados consolidados do Estudo de Harvard sobre o Desenvolvimento Adulto, correlacionando a qualidade das redes de relacionamentos e casamentos estruturados à longevidade).

4. Conceitos Culturais Aplicados à Saúde Comunitária

  • WIKING, Meik. O Livro do Hygge: O segredo dinamarquês para viver bem. Lisboa: Jacarandá Editora, 2016. (Referência conceitual sobre o estilo de vida, atmosfera e redes sociais dinamarquesas).

  • BUETTNER, Dan. The Blue Zones: 9 Lessons for Living Longer From the People Who've Lived the Longest. Washington, D.C.: National Geographic, 2012. (Estudo de campo em Okinawa sobre a estrutura social, funcionamento e impactos do "Moai" na saúde de populações centenárias).

 
 
 

4 comentários


Aprendo muito com seus textos e reflexões. Por favor, continue.

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Fernanda Pádua
Fernanda Pádua
24 de jun.

Mais um excelente texto! O homem é um animal social, e se tivermos em mente a importância do outro na sua vida, seja um familiar, um amigo ou até mesmo um colega de academia em sua proporção do momento, torna o presente em uma experiência que certamente aumenta o real sentido da longevidade!

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Nirce João
Nirce João
24 de jun.

Infelizmente as telas estão nos afastando, já não existe "o cara a cara" que houve em outras épocas, já vi famílias almoçarem cada um prezo ao celular, todos falando,mas ninguém falava com quem estava as á mesa.

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Maravilha! Obrigado Breno.

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