Monitores Contínuos: Ondinha ou Tsunami?

Em 2021, no auge da pandemia de Covid, eu estava dormindo mal. Trabalhava na linha de frente e o desconhecido associado ao medo de algo que não compreendíamos justificava com folga meu sono ruim. Neste contexto, comecei a utilizar um relógio que mensurava o sono para tentar, de alguma forma, entendê-lo melhor e melhorá-lo. Era o começo de um interesse que só vem aumentando no meu dia a dia e no dos meus pacientes nos últimos anos.
O corpo como máquina de gerar dados
O nosso corpo é uma máquina de criar dados, segundo a segundo. Pressão arterial, frequência cardíaca, ritmo cardíaco, saturação de oxigênio, frequência respiratória, temperatura, dados laboratoriais, dentre outros milhares. Imagine uma academia com várias esteiras. Diariamente, são realizados inúmeros testes ergométricos, mas não os mensuramos, concorda? Um coração que infarta subitamente, certamente estava emitindo alguns sinais alterados antes do evento. O organismo está emitindo dados a todo instante, e nós, simplesmente, ainda não conseguíamos coletá-los. Os wearables vieram preencher esta lacuna.
O que são wearables (e por que todo mundo está usando)
Os chamados wearables são monitores vestíveis que vão de anéis a pulseiras e relógios. Certamente você já reparou naquele anel meio esquisito no dedo indicador de algum amigo ou naquela pulseira, sem visor, que uma amiga vem utilizando. O objetivo deste texto é trazer minha experiência, cada vez maior, com estes dispositivos.
Afinal de contas, vale a pena ou não? Afirmo, sem medo de errar, que os benefícios são bem superiores, e explico na sequência…
Os monitores vestíveis ainda não são isentos de falhas, muito pelo contrário, mas têm evoluído assustadoramente nos últimos anos. Ouso dizer que, nos próximos dois anos, a sua avaliação de saúde passará, impreterivelmente, por estes dispositivos. A evolução tem sido impressionante.
Quais dados do wearable são realmente confiáveis
Os principais indicadores confiáveis para tendência, não para diagnóstico, que eles já mostram e que devem ser acompanhados: passos dados no dia, frequência cardíaca em repouso, variabilidade da frequência cardíaca, saturação de oxigênio e tempo de sono (não qualidade, já que as fases ainda não são validadas). Os demais dados exigem muito cuidado e ainda não estão validados, tais como: a qualidade (e fases) do sono, VO2 máximo (consumo máximo de oxigênio), “bateria” (hybridcharge, readiness, prontidão, body battery, energy score, recovery…), detecção de estresse e idade biológica. Todos estes se utilizam de algoritmos que ainda não são validados para uso médico.
O que tenho notado na prática do dia a dia, com vários pacientes já em acompanhamento, é que os wearables são excelentes ferramentas de autoconhecimento. O impacto da bebida no sono, por exemplo, é evidente, mensurável e confiável por meio da variabilidade da frequência cardíaca: o álcool eleva a frequência cardíaca de repouso e reduz a VFC na primeira metade da noite. O paciente passa a enxergar, com dados, este impacto e tende a se cuidar melhor. Tenho inúmeros casos documentados. Dado sem interpretação é ruído; dado com interpretação é mudança de comportamento. Apenas o fato de mensurar já predispõe uma melhora dos hábitos. Outro exemplo, muito frequente, é o wearable antecipando quadros infecciosos virais em 24 a 48 horas, via elevação da temperatura cutânea noturna e da frequência respiratória.
Algumas pessoas tornam-se reféns destes dados? Sim. Passam a acreditar mais nos números (que, como eu disse, ainda não são tão confiáveis) do que na própria percepção. Não é incomum o despertar após uma bela noite de sono, na percepção própria, e a nota ruim dada pelo wearable despencar a energia na mesma hora! Dica prática: para as avaliações de sono, principalmente, que ainda não são tão confiáveis, mas mexem conosco, olhem apenas no final do dia. Desta forma, a percepção real é comparada com o número fornecido de sono e bateria.
Acredito que, nos próximos anos, a qualidade destas medidas irá se aprimorar ainda mais, provavelmente com dispositivos implantáveis e validação com os métodos atuais considerados padrão-ouro. Não entrarei no mérito da adesão individual, mas certamente, este será o futuro, não muito distante. Os benefícios (mudança de hábitos) serão infinitamente maiores que os riscos (ansiedade por dados). A pergunta do título se responde assim: hoje é ondinha. Em dois anos, tsunami.
O seu corpo já está emitindo esses dados agora, em tempo real, e o que exatamente você está fazendo com eles? Já usa algum wearable?
A maioria de nós (que já utiliza) olha o número, acha curioso e fecha o aplicativo. O dado existe, mas não vira decisão. O corpo avisa sempre — o problema é que quase ninguém está prestando atenção. Algo novo está surgindo.
Não vou contar tudo agora. Mas se você quer entender melhor o que estou preparando, me chama no WhatsApp — é o canal mais direto para conversar sobre isso.




Comentários