O Engodo da Longevidade | Nível 2 O Elefante está na sala e insistimos em não vê-lo
- Breno Gomes
- 1 de jun.
- 8 min de leitura

O que realmente define a longevidade de uma população? Na primeira abordagem (leia na íntegra aqui), deixamos bem claro que o saneamento básico é o fator que mais impacta a longevidade da população mundial e, por incrível que pareça, em pleno 2026, segue sendo o maior desafio do planeta. Após atingir níveis de acesso seguro real, qual seria o próximo nível para aumentarmos a longevidade das pessoas?
Nível 2 - Educação
A educação da população está diretamente relacionada à longevidade. A educação promove civilidade, boas escolhas e progresso de qualquer país. Assim como no primeiro nível, precisamos definir um indicador ideal para mensurar a qualidade da educação de uma população. Apenas a título de curiosidade e conhecimento, temos dois principais indicadores que abordam a educação: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que avalia a qualidade de vida da população e o Índice de Capital Humano (HCI) que indica a produtividade futura. Além deles, possuímos algumas avaliações diretas dos alunos que evidenciam a qualidade direta do ensino. Mesclar um índice com uma avaliação é o melhor caminho na minha opinião, inclusive porque o HCI utiliza uma avaliação na sua mensuração. Vamos passar rapidamente por eles para que você conheça melhor.
PISA
O PISA (Programme for International Student Assessment ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) é uma prova internacional realizada com jovens de 15 anos que avalia a capacidade real de aplicar o conhecimento na vida real; ele não quer saber se o aluno passou de ano ou quantas horas ele ficou na escola. Uma nota alta no PISA significa que a população tem alta capacidade de interpretação, raciocínio lógico e literacia científica. O teste divide-se em três grandes blocos: matemática, ciências e leitura. Este é o padrão ouro na avaliação da educação de uma população.
A principal vantagem é que as notas podem ser comparadas mundo afora e são diretamente ligadas à qualidade da educação do país. O mais chocante é que apenas 42% dos países (81 de 193) conseguem realizar o teste do PISA. Alguns países optam por não participar desta mensuração, mas boa parte não realizam por não conseguir manter os jovens de 15 anos na escola e não tem um sistema amostral organizado. Na base da pirâmide, a evasão escolar precoce, a mortalidade infantil até os 5 anos e a baixa expectativa de vida de adultos quebram o ciclo educacional antes mesmo que ele possa ser medido.
Como todo indicador, em um país continental como o Brasil, teremos o problema da baixa amostragem representando o todo, mas já é um belo começo para avaliarmos qualitativamente nossa educação.
PIRLS / TIMSS
Além do PISA, existem o Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS) - Estudo Internacional de Progresso em Alfabetização de Leitura - e o Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS) - Tendências no Estudo Internacional de Matemática e Ciências. Enquanto o PISA avalia jovens de 15 anos, esses dois exames internacionais avaliam a base (crianças do 4º. e 8º. ano do ensino fundamental), onde o capital humano começa a ser construído.
O PIRLS mede o nível de alfabetização real, ou seja, a capacidade, não só da leitura, mas da interpretação adequada do texto. Países que vão mal no PIRLS sofrem com o analfabetismo funcional precoce — a criança decodifica as palavras, mas não consegue explicar o sentido do parágrafo que acabou de ler.
O TIMSS mede o domínio e o raciocínio em matemática, biologia, química e física. Diferente de provas que exigem apenas fórmulas decoradas, avaliam-se três níveis cognitivos do aluno: o conhecimento de fatos e conceitos, a capacidade de aplicação desse conhecimento para resolver problemas do dia a dia e o raciocínio lógico diante de desafios inéditos. Ele é o maior termômetro global para saber se um país está preparando suas crianças para carreiras tecnológicas, científicas e de engenharia.
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
Desenvolvida pela Organização das Nações Unidas (ONU) através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), este indicador mensura aspectos relacionados à saúde da população (expectativa de vida), educação (tempo de escola) e renda - utilizando a Paridade do Poder de Compra (PPC/PPP) - valor ajustado para refletir o custo de vida real de cada país.
A principal limitação do IDH, em se tratando de educação, é ser um indicador meramente quantitativo que avalia apenas o tempo de escola dos estudantes e ignora a qualidade da educação. Criança na escola é bem diferente de qualificação real. Políticas que facilitam a aprovação dos alunos melhoram este indicador, mas não melhoram a qualidade do ensino. Na prática das redes públicas, devido à falta de professores para reforço, pressões para melhorar índices estatísticos - como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) - e bônus de gestão, o sistema acabou virando uma máquina de aprovação automática velada. Muitos alunos avançam de série sem o aprendizado real, gerando o fenômeno do analfabetismo funcional nas séries finais e no mercado de trabalho brasileiro.
No IDH especificamente, políticas de distribuição de renda (como o Bolsa Família) e a avaliação superficial da educação (apenas com o tempo de escola), elevam nosso indicador (primeira vez na história que atingimos o patamar de “Muito Alto”, acima de 0,800 no IDH Municipal), mas sem força alguma na prática. “Maquiar” indicadores é bem frequente, infelizmente, na gestão pública. Sendo assim, o IDH é um indicador falho no quesito educação da população. Queria apenas colocar esta avaliação crítica já que, certamente, a melhoria deste nosso “patamar” será explorada em campanhas eleitorais.
Índice de Capital Humano (HCI)
O Índice de Capital Humano (HCI) do Banco Mundial é um indicador que unifica o tempo de escola, a qualidade do ensino e a saúde dos estudantes com a perspectiva de produtividade da população no futuro. Este é o indicador que escolhi para mensurar nossa educação. O HCI foi desenhado para responder a uma pergunta bem direta: “Qual será a produtividade da próxima geração de trabalhadores se as crianças de hoje tiverem acesso à saúde e à educação completas?” Vejam que a educação está diretamente ligada à saúde! Não há como desvincular.
O cálculo do HCI não é uma média simples. Ele é estruturado em três pilares fundamentais:
Sobrevivência: Mortalidade Infantil até os 5 anos; A criança precisa sobreviver para ser produtiva
Escola: Quantidade e qualidade; avalia-se não apenas o tempo de escola (como o IDH), mas também a qualidade do ensino através de testes (o PISA é o principal deles - aplicado em jovens de 15 anos);
Saúde, Crescimento Saudável e Ambiente: avaliação da nutrição das crianças e a expectativa de vida.
Os pilares são interdependentes. De nada adianta um país ter escolas excelentes (Pilar 2) se as crianças sofrem de desnutrição crônica na primeira infância (Pilar 3) ou morrem antes dos 5 anos (Pilar 1). O indicador de tempo de escola é muito superficial, pois abrange o tempo do aluno na escola, mas não consegue avaliar a qualidade do aprendizado. O modelo multiplicativo pune severamente os países que ignoram um dos lados da balança (saúde ou educação) e segue este desenho:
HCI = Probabilidade de Sobrevivência x Fator de Produtividade da Escola x Fator de Produtividade da Saúde
O resultado final varia de 0 a 1 e é calculado multiplicando os componentes desses pilares, que refletem a jornada de uma criança desde o nascimento até a idade adulta (18 anos). Um índice de, por exemplo, 0,60 significa que uma criança nascida hoje atingirá apenas 60% do seu potencial de produtividade quando crescer, devido às limitações atuais de saúde e ensino do seu país. Notem a relação direta com a longevidade, na tabela abaixo:
País | Expectativa de Vida ao Nascer (anos) | Índice de Capital Humano (HCI) |
| 86,5 | Sem dados* |
2. 🇸🇲 San Marino | 85,8 | Sem dados* |
3. 🇭🇰 Hong Kong | 85,6 | 0,81 |
| 84,8 | 0,80 |
5. 🇰🇷 Coreia do Sul | 84,4 | 0,80 |
--- | --- | --- |
115. 🇧🇷 Brasil | 76,6 | 0,55 |
--- | --- | --- |
🌍 Média Mundial | 73,5 | 0,56 |
--- | --- | --- |
191. 🇹🇩 Chade | 55,2 | 0,30 |
192. 🇱🇸 Lesoto | 54,3 | 0,40 |
193. 🇨🇫 Rep. Centro-Africana | 53,3 | 0,29 |
*Nota sobre Mônaco e San Marino: O Banco Mundial não possui dados de HCI calculados para esses dois microestados por eles não participarem das avaliações escolares padronizadas internacionais (como o PISA).
O Índice de Capital Humano é um indicador de longevidade espetacular! Claro que, como qualquer indicador, não consegue abranger todas as variáveis, mas é o mais refinado, na minha opinião. O primeiro lugar do planeta é Singapura, com incríveis 0,88. Uma criança nascida em Singapura hoje tem a expectativa de atingir 88% do seu potencial máximo de produtividade. O país se destaca por taxas de sobrevivência infantil perfeitas e uma qualidade de ensino que lidera repetidamente os testes globais - como o PISA, por exemplo. Constantemente, figura entre os países com maior longevidade do planeta! Novamente, volto a destacar que é cruel a comparação do Brasil com estes países… Singapura é do tamanho da cidade do Rio de Janeiro! Entretanto, no Rio, estima-se que o HCI seja de apenas 0,62 com uma expectativa de vida de 77,3 anos ao nascer. O que mais choca é que dentro da mesma cidade, o Código de Endereçamento Postal (CEP) ajuda a definir a expectativa de vida do indivíduo. Em se tratando de Rio de Janeiro, quem nasce na Gávea, por exemplo, tem uma expectativa de vida de 81 anos, já no Complexo do Alemão é de 66 anos! São 15 anos separados por alguns quilômetros! Nossos desafios são enormes, mas precisam ser enfrentados localmente com uma perspectiva geral bem alinhada. No Brasil hoje, uma criança só atingirá 55% do seu potencial máximo de produtividade, isto é muito triste.
Ao contrário do que a maioria acha, o nosso maior gargalo estrutural não é colocar o jovem dentro da escola, mas sim, ensiná-lo a pensar logicamente e a resolver problemas simples do dia a dia. A qualidade da nossa educação pública é pífia. O melhor indicador isolado para avaliar esta realidade é realmente o PISA que escancara o problema no nosso país. A pontuação geral média do Brasil é de 395 pontos. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera uma nota abaixo de 400 pontos como Zona Crítica (Nível 1 de Proficiência). Os alunos possuem apenas habilidades rudimentares, onde conseguem ler palavras isoladas, mas não interpretam o texto; conseguem fazer contas simples de somar, mas não sabem aplicar a matemática para resolver um problema cotidiano. Mais de 50% dos alunos brasileiros de 15 anos não atingem o nível básico de leitura esperado para a idade e praticamente 7 em cada 10 estudantes brasileiros não conseguem converter preços de moedas diferentes ou resolver uma regra de três simples aplicada à realidade. O analfabetismo funcional é muito comum no Brasil e precisa ser combatido para evoluirmos como sociedade e na expectativa de vida.
País | Expectativa de Vida ao Nascer (anos) | Desempenho no PISA (Média Geral) 🧠 |
1. 🇲🇨 Mônaco | 86,5 | Sem dados* |
2. 🇸🇲 San Marino | 85,8 | Sem dados* |
3. 🇭🇰 Hong Kong | 85,6 | 525 |
4. 🇯🇵 Japão | 84,8 | 524 |
5. 🇰🇷 Coreia do Sul | 84,4 | 520 |
—-- | —-- | —-- |
🌐 Média Mundial | 73,5 | 475 (média da OCDE) |
—-- | —-- | —-- |
115. 🇧🇷 Brasil | 76,6 | 395 |
—-- | —-- | —-- |
191. 🇹🇩 Chade | 55,2 | Sem dados* |
192. 🇱🇸 Lesoto | 54,3 | Sem dados* |
193. 🇨🇫 Rep. Centro-Africana | 53,3 | Sem dados* |
*Nota: Países indicados com "Sem dados" não participam das avaliações escolares padronizadas internacionais da OCDE (como o exame do PISA), seja por adotarem sistemas de amostragem próprios (no caso dos microestados) ou por limitações estruturais de suas redes de ensino (no caso das nações da base da tabela).
Acima de 520 pontos: Excelência Global.
475 a 500 pontos: A Média de Referência.
Abaixo de 400 pontos: Zona Crítica (Nível 1 de Proficiência).
O investimento na qualidade real da educação básica (não somente em tempo de escola) torna-se fundamental para a longevidade da população. A utilização de indicadores adequados que monitorem a evolução real das medidas instituídas é o mínimo. Não podemos mascarar indicadores, precisamos expor a realidade e trabalhar duro para mudá-la. O conhecimento literalmente liberta, promove melhores escolhas e possibilita uma literacia em saúde muito maior. A educação do povo brasileiro é um problema real e gigantesco que merece ser combatido de verdade. Existe um elefante na sala e estamos insistindo em não vê-lo!
Comente aí embaixo o que você achou? Concorda? Discorda? Por quê? Bora discutir longevidade de um jeito certo? Semana que vem, o terceiro nível!
Fontes Utilizadas:
Banco Mundial: Human Development/Human Capital Index (HCI) Database. Os dados de produtividade e capital humano foram extraídos diretamente do portal de dados abertos do Banco Mundial.
ONU (Divisão de População) & Banco Mundial: Dados demográficos atualizados de expectativa de vida ao nascer para cruzamento de variáveis.
Expectativa de Vida Internacional: Organização das Nações Unidas (ONU), Divisão de População. World Population Prospects.
Expectativa de Vida (Brasil): Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tábuas Completas de Mortalidade.
Índice de Capital Humano (HCI): Banco Mundial. Human Capital Index (HCI) Database.




Educação básica é o básico!
Belo texto! Lembrando que a Savassi em Belo Horizonte tem IDH de Suíça 🇨🇭 enquanto BH como um todo está em nível baixo! Brasil é muito complicado de se aplicar nesses índices. Muito bem lembrado! Mas faltou abordar o fundamental que entra no aspecto ideológico: as lideranças brasileiras querem mesmo que nossos novos cidadãos nascidos a cada dia sejam protagonistas intelectuais ou apenas querem que sejam mão de obra barata para manutenção dos empreendimentos capitalistas e apertadores de parafusos dos grandes capitalistas? Sei que isso existe pelo mundo todo, mas no Brasil a manutenção da exploração da mais valia alheia é também mais evidente que nos outros pontos do mundo! Grande abraço 🤗